quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

O Folk do Lestics e a Eterna Busca da Autonomia



No final de 2006, dois integrantes da banda paulistana Gianoukas Papoulas (nome digno de constar em texto do Hergé) montaram um projeto paralelo, chamado Lestics. A idéia básica, compor com liberdade, gravar em home studio e colocar as gravações na internet para download gratuito. Ou seja, com o acréscimo da tecnologia, pôr em prática mais uma vez os preceitos punks de 1976. Incrível como, 30 anos depois, a busca pela autonomia continua a guiar bandas como forma viável e possível. Existe algo mais insuportável do que depender de terceiros para fazer alguma coisa? Felizes são os pintores e os escritores, que podem fazer seu trabalho de forma solitária, e nem precisam passar pelo (desgastante e caro) processo de gravação em estúdio. Não precisam marcar ensaios, conciliar horários, administrar egos feridos. E o melhor de tudo, não precisam procurar baterista. Quanto menos gente envolvida, melhor. Não dependa de ninguém, jamais. O Lestics seguiu essa idéia, a busca do máximo quando se tem o mínimo. Dois músicos, com a ajuda complementar de um artista plástico (para a capa e o site), um DJ (algumas programações) e um técnico em masterização. Foi o suficiente, e a famigerada tecnologia se incumbiu do resto.

(na aba oposta do leque artístico estão os cineastas, ainda asfixiados pela impossibilidade de autonomia e completa independência, já que o cinema exige um investimento himaláico, muitas e muitas pessoas envolvidas e, no final de tudo, um número de salas de exibição simpáticas à causa em número abaixo do nível do mar. Calma, algo está acontecendo neste exato momento: http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2007/12/04/327439610.asp. A era punk finalmente chegará aos cinemas? Morrerão os dinossauros progressivos captadores de recursos públicos? Respondam, respondam)

Assim, ocorre o seguinte: o que importa é o processo, é a felicidade de aprender e de se aprimorar, de ver seu produto chegar às pessoas que realmente estão interessadas nele. E se não chegar, isso é o que menos importa. Afinal, o que vale mais, uma platéia menor, atenta e interessada, ou uma multidão bêbada pulando em frente ao palco montado com o dinheiro de uma empresa de telefonia celular, banco, cerveja ou refrigerante? Não precisa responder.

(mais um parêntese: há uns três anos assisti a um show do Billy Bragg, só voz e guitarra, lugar de tamanho médio com um público de cerca de 200 pessoas, acho. Os aplausos não eram no final de cada música, mas sim no final de cada frase, algo que eu nunca tinha visto antes. Gostaria de ter entendido mais do que ele cantou, o bardo é inglês, mas sinceramente não sei que língua fala. Passei 10 anos estudando o idioma, em duas escolas, e tenho esses certificates inúteis. Quero meu dinheiro de volta)

A questão tecnológica e econômica: porque gastar milhares de dólares em um estúdio profissional estilo L.A., se podemos obter um resultado (semelhante / aceitável / apenas um pouco inferior) em um McIntosh caseiro? “Pelo timbre, pelo timbre perfeito”, retruca o dono-de-estúdio-estilo-L.A., defendendo seu território. “E o timbre perfeito sobreviverá após sua mutação para 128 Kbps e, céus, depois de ser anexado a um ícone dentro de uma página na Internet?” devolve o dono do McIntosh caseiro cheio de programas de última geração, muitos deles pirateados. E agora? E agora? Um Mesa-Boogie em volume máximo dentro de uma sala com tratamento acústico, ou um reles plug-in digital de guitarra? A provável perfeição ou o custo-benefício? Respondam, respondam. “Depende do objetivo” não vale.

O Lestics escolheu a segunda opção, e não se arrepende. O duo é Olavo Rocha (voz) e Umberto Serpieri (o restante, a parte que falta). Em março de 2007 lançaram o primeiro trabalho, chamado “Nove Sonhos” (ouça em http://www.lestics.com.br/). A gravação e mixagem foram feitas em um computador caseiro, com a utilização de programações eletrônicas. Dizem por aí que quem faz a mixagem não deve fazer a masterização. Dessa forma, a master veio de um estúdio externo. Poucos meses depois saiu o novo álbum, “les tics”, com suas nove faixas disponíveis no site, incluindo a capa. Ouça, grave, participe, tire suas conclusões. Um folk-country diferente, com bateria eletrônica, violões-base e arpejos de guitarras limpas e tremolos, teclados jovem-guarda, cantor de dicção clara e letras curtas e sintéticas, como esta:

Gênio (Lestics)

Shakespeare e os gregos
já disseram tudo antes
E você não quer viver
à sombra de gigantes

Três ou quatro genes
te separam da grandeza
Mas culpar seus pais
não é da sua natureza

Você tem a alma
atormentada de um gênio
Pena que te falte
uma pitada de talento

Só a solidão do topo
iria te acalmar
Todo mundo te entende
e isso te parece tão vulgar

Você tem a alma
atormentada de um gênio
Mas te falta
o talento

Para finalizar, o texto realismo-fantástico-lisérgico-anos-60 de Fernando Tucori, jornalista do site Rockwave (http://www.rockwave.com.br/). Está no release da banda. Acho que só serei capaz de escrever desse jeito depois da décima caneca de Guiness, e eu nunca passei da terceira. A Guiness é muito cara. A quarta é sempre Bohemia, baita nome legal. E sem nenhum axé/pagodeiro como garoto-propaganda.

“les tics

Vindo de uma temporada de imersão em Hunter Thompson e de uma matéria na mesma linha, “les tics”, da banda Lestics me serve como válvula de descompressão. Depois de ler a alma atormentada chapada de ácido no meio do deserto, em Las Vegas, é uma delícia ser conduzido pelos Lestics a uma viagem pela alma humana em nove capítulos. São nove maneiras diferentes de se perder dentro de alguém e, em contrapartida, achar-se em outro lugar, porque tudo aquilo que não foi capaz de te destruir, você é capaz de transformar em poesia.

Você estranha com admiração, você admira com estranheza, você vai negar, vai achar que a culpa é sua, vai achar que não é culpa de ninguém, é inevitável, que tudo está escrito mas mesmo assim muda, e que isso é que é o caos e não vai adiantar nada você perguntar ao caos por que é que ele é assim. É assim que é, o mundo é assim, a vida é assim e você não é um herói. Nem eu sou. Nem os Lestics. Quem faz de si um animal selvagem, fica livre da dor de ser um homem. Os Lestics não fazem nem um nem outro. Eles são homens e pagam em música a dor de o serem.”
(Fernando Tucori)

Nossa.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Ao Vivo!


sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Crítica? Que Crítica?



A crítica musical deve ser feita após audição atenta do trabalho do artista, ou seja, do criticado. E o crítico deve necessariamente entender do assunto e buscar ao máximo não colocar seu gosto pessoal naquilo que escreve. Difícil, hein? Quase impossível. “Na crítica literária, o crítico não tem outra alternativa que não a de converter a vítima que está analisando em algo à sua semelhança”. Antes que algum deles reclame, informo que a frase entre aspas não é minha, mas de John Steinbeck, o pai de Tom Joad. Música não é literatura, e a questão aqui é um episódio recente em que um famoso jornalista carioca comentou o trabalho de bandas brasileiras que gravaram versões de músicas dos Beatles, em homenagem aos 40 anos do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band.

Há milênios passados, habitaram o planeta escritores que traçavam paralelos entre o trabalho de músicos e bandas com o mundo que nos rodeia. A crítica como literatura, Lester Bangs, Greil Marcus, entre outros. Bons tempos em que as pessoas tinham paciência para ler quase-tratados intelectuais sobre temas tão sem importância como bandas e discos de rock (... but I like it). Sim, Lester e Marcus foram os mentores do modernismo musical-impresso. Os monet da crítica (menos, menos). E hoje? Poucas frases apenas. Não há “literatura-comparada” alguma, isso não importa mais, e talvez não deva importar mesmo, não sei. O músico não precisar ser ou estar ligado ao seu próprio tempo. Essa análise tomaria tempo, e em alguns casos, também espaço. Cada mídia com seu estilo e proposta, não? Em blogs, por exemplo, a crítica fast-food pode ser a esperada, apesar do espaço disponível.

Para não ser injusto, sobrevive um escritor do jornal O Globo que ainda tece conjecturas inteligentes em sua coluna semanal, que nem sempre trata de música. O sujeito é bom. E devem existir muitos outros também. Alguns escribas da Rolling Stone brasileira. Quem conhecer mais, me avise. Onde estarão os discípulos de Ana Maria Bahiana?

(a quem se interessar: disponíveis em português os livros “Reações Psicóticas”, de Lester Bangs; e “A Última Transmissão”, de Greil Marcus, ambos da Conrad Editora).

O jornalista famoso, que conta com muitos e muitos leitores, escreveu isto:


"Quinze bandas independentes brasileiras lançaram pela internet o disco "Sargento Pimenta 2007", uma releitura do disco dos Beatles "Sergeant Pepper's Lonely Hearts Club Band" em homenagem aos 40 anos do lançamento pelos Beatles ...Como sói acontecer em iniciativas deste gabarito, as gravações replicam a vida de um ascensorista, num constante sobe e desce de qualidade. No ponto mais baixo está "Lovely Rita" com a formação carioca Fuzzcas, mal cantada e mal tocada com um solo de guitarra sem qualquer inspiração. Em compensação, muita gente fez bonito. Madame Mim foi a mais ousada com sua versão da faixa título totalmente eletrônica com um vocal suave e uma certa subversão da melodia ..."

A raiva de alguém que não concordou com a forma como foi feita a crítica (ou seja, eu): onde fica o ponto mais baixo, meu caro tinhorãozinho básico? No porão? Na garagem? Se for lá, talvez a frase seja um elogio. Se não, por que e para que isso? Também não entendi a comparação das músicas com a vida de um ascensorista, que pelo que eu saiba oferece sempre o mesmo serviço, com a mesma qualidade, independente do andar solicitado por quem adentrar ao elevador. Incluindo o "ponto mais baixo".

Então, a prova dos nove (expressão do fundo do baú) deve ser tirada ouvindo-se a versão dos Fuzzcas no http://sargentopimenta2007.blogspot.com/, e também suas próprias músicas no site http://www.fuzzcas.com/. A banda é boa, a cantora também, e esse negócio de inspiração para solo de guitarra é relativo. Às vezes, expiração é bem melhor. É interessante ver como a banda conseguiu reverter o contexto da frase em seu site, de forma bem humorada. Tem até uma foto do jornalista lá. Falem mal, mas falem de mim.

Fim. Mudando de assunto, vamos agora falar mal de cantores de axé ou pagode que incitam a juventude ao terrível vício sem volta do álcool, condenando-os a uma morte horrível no trânsito se não tiverem amigos abstêmios legais nem dinheiro para o táxi, ou pior, a uma barriga imensa pendendo sem controle para fora da calça. Já notaram que esses malditos pseudo-cantores sempre mantêm uma fundação-de-auxílio-a-crianças-carentes-no-local-miserável-onde-passaram-sua-infância-sofrida? Fazem isso, é claro, para justificar perante não sei quem a bufunfa ganha das cervejarias, inclusive de uma bem conhecida que nem imposto paga. Ou seja, como os impostos no Brasil não retornam em forma de políticas sociais, é preciso que axés e pagodeiros façam propaganda de cerveja para que consigam levar os impostos sonegados ou não à referida comunidade carente, fazendo assim justiça com as próprias papilas gustativas. Faz sentido. Escrevi isso tomando uma, mas preferi Guiness. Não tenho acesso à propaganda que ela faz. Oh Godness, My Guiness.

Ana Maria Bahiana

Aposto que poucas pessoas conseguem saber o momento exato em que disseram para si mesmas, pela primeira vez, “eu gosto de rock’n’roll”. Um momento mágico, mas com efeito nem sempre eterno. Pois eu me lembro: foi quando fui à banca de jornal localizada em frente à COBAL do Leblon e comprei um exemplar de “As Melhores Bandas de Rock de Todos os Tempos”, escrito pelos mestres Ana Maria Bahiana e José Emílio Rondeau. Em número de dez e sem ordem, as bandas eram as seguintes: Beatles; Yes; Sex Pistols; Pink Floyd; Crosby, Stills, Nash & Young; Rolling Stones; Cream; Traffic; The Who e Led Zeppelin. Antes de discordar da lista, informo que os critérios foram definidos lá, tipo músico-solo não vale, importância da obra completa, influência sobre outras bandas, etc. Da lista, eu só não concordaria com o a inclusão do Traffic. Colocaria os Doors, mas a Ana disse que eles eram só o Morrison, e esse foi justamente o critério adotado para não incluí-los. Sim, notar que à época ainda não existiam U2 nem Smiths nem Police, que não poderiam ficar de fora. Ou existiam mas ainda não faziam tanto sucesso, como o caso do Police (ouço vozes discordantes: Smiths e Police na lista, heresia, heresia!). A revista não traz nenhuma data, calculo que tenho sido publicada por volta de 1979 ou 1980. Depois disso não é, porque o texto sobre os Beatles não cita o encontro de John com Mark. Quem comprasse o fascículo ganhava grátis uma fita virgem C-60 high-performance da MAC. Uêba.

Nick Hornby ainda não tinha escrito Alta Fidelidade. Acho que ele leu “As Melhores Bandas de Rock de Todos os Tempos”.

Falando da professora de muitos que escrevem por aí, o Música Folk! recupera um texto dela que saiu algum tempo depois, em fevereiro de 1983, na extinta revista Pipoca Moderna. A revista publicava coisas interessantes: “Who dá adeus à estrada”; “O que aconteceu com o Pink Floyd?”; “Por que a rádio FM é tão chata?”. Rapaz, o assunto é sempre o mesmo.

(por curiosidade, abri minha caixa de fitas antigas, guardadas no fundo da gaveta inferior do armário, onde em casas-padrão habitam os sapatos. Lá estava ela, a MAC high-performance. Tinha que ser ela, a única MAC no meio de dezenas de BASFs e Phillips. Abri a caixa, e estava escrito, na capa interna: Rumours - Fletwood Mac, com a lista das faixas. Não lembro se foi alguma piada esse negócio de gravar o Fletwood numa MAC, ou se foi só coincidência. Coloquei-a no Tape-Deck - sim, ainda tenho isso. Nada, só barulho. Como a Stevie Nicks não era adepta do rock industrial, deduzi que a fita estava estragada mesmo. Apesar da lata de lixo ao alcance da mão, guardei a fita na caixa, e guardei a caixa no fundo do armário. Fechei a porta, e tive a certeza de que, realmente, eu devo ter alguma espécie de problema)

Bem, voltando, já que falei de crítica musical no post aí de cima, resolvi recuperar um texto antigo que trata justamente disso. De uma maneira correta e inteligente, independente da opinião que se tenha sobre o assunto. Algumas partes não se aplicam mais de forma ampla, como a que fala dos artistas-heróis. Com a Internet e outras tecnologias, sobraram poucos, só alguns figurões, e hoje muitos deles tentam salvar as migalhas. Mas a defesa apaixonada da Crítica vale a leitura. A guerra de doidos continua.


Porque Amo a Crítica
(Tomando posição numa guerra de doidos)

Ana Maria Bahiana
Revista Pipoca Moderna – fevereiro de 1983

“A essência do drama é a complexidade; a fatalidade do heroísmo é a necessidade de vencer um inimigo. O herói se alimenta da tragédia. Sem tragédia, como existiriam feitos heróicos? Dessa forma, o líder glorioso sempre se sente compelido a declarar guerra. Algum povo, algum grupo, algum indivíduo deve ser sombrio e mau para que, vencendo-o, o herói prove o seu heroísmo” (Dane Rudhyar).

“Uma das discussões mais interessantes da ruptura punk 76 talvez nunca chegue ao Brasil: a discussão do papel do artista popular, sua real dimensão. Os punks diziam – diziam através de fatos e atos, porque a prática é sua fala – que qualquer um era artista, que não deviam existir fronteiras entre palco e platéia, que “criar” não era um ato divino ou inspiracional mas um acaso, uma brincadeira. Essa discussão se deu porque do outro lado o artista tinha-se hipertrofiado até o ridículo, tinha se tornado, de fato, “divino”, olímpico, inacessível.
Estamos chegando a este ponto aqui, agora, mas ninguém parece disposto a discutir o assunto.
Todo ser humano é potencialmente capaz de criar. As sociedades “primitivas” vivem da criação: na Indonésia, por exemplo, o “lazer”, ou seja, a atividade de inventar e descobrir, ocupa dois terços do dia; o “trabalho”, ou seja, a subsistência, toma não mais que um par de horas.
Mas nossas sociedades “civilizadas”, capitalistas, socialistas ou mais ou menos, não precisam de indivíduos criativos. Precisam de mão-de-obra. Técnicos. Operários.
O que fizemos do quinhão criador que tivemos, um dia? Abrimos mão dele em troca de um lugar no mercado de trabalho. E delegamos esse poder a outrem. A outro técnico, outro trabalhador: o que, em troca de nosso amor, de nosso dinheiro e de nosso tempo, criará por nós. Eventualmente – uma ou duas vezes em cada geração, mais ou menos, num lance de dados da genética – ele será completamente criativo. Genial. Absoluto. Tirará do nada estradas, formas e cores. É raro, mas acontece. Os demais serão o que devem ser, o profissional assim como somos o que fizeram de nós: profissionais do entretenimento. Ele nos divertirá após um dia duro de trabalho não-criativo. Ele encarnará nossas fantasias. Ele viverá nossos desejos de revolta, libertação e protesto.
É um belo trabalho, um trabalho honesto que gera empregos, divisas e eventualmente enriquece dezenas de pessoas, ano após ano. É uma boa carreira, capaz de rápida evolução mesmo em anos de crise econômica, de salários ralos, no início, mas bastante compensadores após anos no mercado.
Não posso falar das outras especialidades desse mercado. Em música popular, contudo, há algum tempo as coisas não se passam bem assim.
Acho que não estou exagerando quando digo que 99 por cento de nossos artistas se vê não como um profissional, mas como um herói. Alguém diretamente investido em suas funções por Deus. Não o artesão de possibilidades conhecidas – harmonias em uso em nossa cultura, ritmos populares, emissão de voz e som – mas sacerdote de uma chama exclusiva, gerada no âmago de seu ser. Ele é diferente. Ele é melhor. Ele é especial Ao seu redor, em geral gravitam satélites – assessores, secretários, divulgadores. Como uma criança ou um doente ele não é capaz de lidar com o mundo real – os satélites se imcumbem disso. Ele se reserva exclusivamente para o elevado dom da criação.
Já parei de contar as músicas e os shows que falam só sobre isso. Sobre como o artista é especial, atormentado pela paixão da criação, superior aos outros seres humanos (a platéia) que se debatem nas avarezas do dia a dia.
Já parei de contar as reclamações contra público e imprensa que “querem aparecer mais” que o artista. Querem ser iguais. Querem ser vaidosos, imagine! Abaixo a democracia da vaidade! Só quem brilha aqui sou eu.
Dane Rudhyar, homem extremamente sábio em seus 87 anos de filosofia, música, pintura e astrologia humanística, já disse de que o herói mais necessita: de inimigos. Num tempo em que já escassearam os inimigos clássicos – o obscurantismo, a repressão, a polícia – a crítica tem se transformado no inimigo favorito do herói. Ela joga poeira sobre seu ouro. Ela o recorda se sua humanidade, de seu papel, de suas limitações.
Ela o avalia: avaliar é um crime no olimpo do herói, ele precisa de adoração, mimos, forças, vibrações positivas. Ela pensa, exercita seu parecer pessoal e, por conseguinte, lembra a todos que pensar e opinar é possível. O herói preferia que, se pensar fosse o caso, era melhor que se pensassem os pensamentos sugeridos por ele, herói.
Essa guerra de doidos não vai acabar nunca. Ela é essencial para a manutenção do status quo e há muitos interesses na manutenção do status quo. O público prefere heróis a seres humanos – ser humano, chega eu! E um diretor de marketing passou 40 minutos me explicando como era essencial manter o artista distante do público para que seus discos vendessem.
Não desejo que a crítica seja a inimiga do herói, nem que seja outro tipo de herói. Sei que ela tem falhas, algumas graves, mas me recuso a discuti-las em público enquanto o ato de opinar, em si, estiver sendo alvo de verdadeiros ataques histéricos. Não quero entrar nessa guerra de doidos em que todos saem perdendo. Quero só dizer o seguinte, dois pontos.
Acredito na crítica honesta. Acredito que uma crítica honesta, mesmo equivocada, é melhor que nenhuma crítica. Acredito que se deve à crítica e à imprensa a sobrevivência de muitas carreiras de profissionais de música durante períodos em que os inimigos eram outros. Acredito que a critica honesta, mesmo com todas as suas falhas, cumpre um papel essencial no bom jornalismo, que é exercitar junto ao leitor a capacidade de emitir opinião. Acredito que o diálogo e até a discussão são melhores que a um monólogo.
Recuso um a um os argumentos dessa guerra de doidos. Não acredito no clichê de que o crítico é um artista frustrado: um crítico critica porque gosta disso, porque compreende verbalmente o mundo abstrato da música. Não acredito no clichê de que o crítico deva ser músico ou compositor para poder escrever: ele deve é saber criticar, há sabedorias e técnicas específicas de seu ofício. Não acredito no clichê de que o crítico é o vampiro do artista: ambos precisam-se mutuamente; um, porque necessita de assunto, o outro, porque necessita de espaço. Ambos nutrem-se, sim, da fonte comum da música, que é uma das formas mais divertidas e ricas de comunicação entre os homens.
Acredito que a arte é maior que a crítica. Acredito que arte é um conceito que tem sido usado fora de perspectiva. Acredito que todo ser humano é capaz de criar e não deve abrir mão desse dom. Acredito que o artista, genial ou não, trabalhador competente ou não, é um ser humano como qualquer outro. Acredito no poder da palavra. Acredito na alegria da música.
Não acredito em heróis.”
Ana Maria Bahiana

Então é isso. Eu também não acredito em heróis. Só acredito em Bruce Springsteen.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

A cena musical de Brasília - bases e espaços





Em década remota, foi cunhada nesta cidade a frase: “Brasília é a capital do rock”. Infelizmente, as aspas delimitam uma pretensão oportunista e como altos teores político-mecadológicos. Patriotadas regionais à parte, se existe uma cidade no Brasil (capital ou não) que merece tal título é São Paulo. Um bairro? Pompéia. Li isso numa revista-do-ramo. Uma rua? Não faço idéia, aí já é querer demais. Deixando o rock de lado e sendo mais abrangente, São Paulo (e Rio, Belo Horizonte, Salvador, Recife) certamente ultrapassam Brasília no indicador MIB (Música Interna Bruta), mas é possível que fiquem (bastante) atrás no MPC (Música Per Capita). Considerando o número de habitantes, Brasília é musical até o último traste, e digo mais, possui um cutway de fazer inveja a Londres e Nova Iorque (calma, calma). Alguns dos responsáveis por tal pujança, as bases e espaços:

ASSOM (http://www.assom.org.br/) - Associação dos Músicos do Distrito Federal e Entorno. Busca defender os interesses dos músicos profissionais, suprindo parte do papel do Sindicato dos Músicos do DF e intermediando as relações entre os músicos e seus contratantes. Um de seus principais objetivos é a criação e o fomento de um mercado de trabalho para o profissional em Brasília, divulgando e distribuindo comercialmente a música criada por aqui. Entre seus associados, nomes bem conhecidos dos nossos palcos, como Rênio Quintas, Célia Porto, Eduardo Rangel, Janette Dornellas, Duo Mandrágora e Jorge Antunes, entre outros. A filiação é aberta a qualquer músico e, de suma importância: sem discriminação de estilo musical. Mas será que não discriminam nem o axé-pagode-funk?

Bares e Pubs com música ao vivo: diversas casas noturnas conseguem fugir com certa freqüência das bandas-covers que assolam a cidade, injetando um pouco de criatividade no sangue já quase que completamente tomado pelo álcool do respeitável público fiel. Entre elas estão o Feitiço Mineiro, Gate’s Pub, UK Brasil, O’Rilley Pub, Rayuela ...

Clube do Choro (http://www.clubedochoro.com.br/) e Escola de Choro Raphael Rabello: promove um trabalho de revitalização e atualização da obra de grandes compositores brasileiros, como Pixinguinha e Jacob do Bandolim, entre outros. Ao mesmo tempo em que referencia os clássicos, também cuida do futuro com projetos como o “Caindo no Choro”, onde explora as possíveis zonas de contato entre o choro, a bossa nova, o jazz e – ora, ora – a música pop. Um oásis para quem gosta de choro e do (bom) samba.

CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil): no primeiro domingo de cada mês, shows ao ar livre no final de tarde, autorais, com excelente infra-estrutura e direito ao cenário do Lago Paranoá e da famosa ponte que, é óbvio, se chama JK. Dizem que ela foi feita com dinheiro que (era) destinado à área da saúde. Faz sentido: quem pular da ponte não precisará mais utilizar o falido sistema nem correr o risco de adentrar a emergência do Hospital de Base ou, pior ainda, o cenário de guerra da internação. Mas o que esse assunto inconveniente tem a ver com este post? Deixe o problema permanecer debaixo do tapete vermelho de algum ministério, onde é o seu lugar. Bom, dito isto, voltando então. Antes que eu me esqueça: tem uns shows subsidiados pelo Banco do Brasil no teatro do CCBB, com ingressos extremamente baratos. Tão baratos que acabam cinco minutos depois de terem sido colocados à venda. Eu nunca consegui comprar nenhum.

Correio Braziliense: página comandada pelos bravos e intrépidos Tiago & Daniela, o Garagem de sexta-feira é A AGENDA de tudo o que vai acontecer musicalmente no underground e middleground de Brasília no (final ou não) de semana. Além disso, trás também informações sobre shows e festivais em outras capitais. Só faz falta o “Carne Nova” (gritos: volta, volta!). No Caderno Fim de Semana, leitura fundamental das páginas “Sons da Noite”, do Irlam Rocha Lima; e “Madrugada B.E.A.T.S”, do Samy Adghirni, sobre música eletrônica. O jornal tem também uma coluna sobre lançamento de CDs muito boa, mas não me lembro em que dia sai, acho que é na segunda, terça, quarta ou quinta-feira.

Centro de Convenções Ulysses Guimarães: lá tem dois níveis de cadeiras: o nível inferior, de ingressos mais caros, dá direito a ouvir o show e a chacoalhar as jóias, se gostar da música. O nível superior (superior só em altura) é ocupado em geral por falidos de carteirinha. Lá o som não chega e o palco fica a cerca de 250 Km de distância. Dessa forma, abra a mão ou fique em casa.

Escola de Música de Brasília: (http://www.emb.com.br/) é quase um milagre (palavra forte?) existir e continuar existindo, para sempre, uma escola desse nível no país das falsas figuras como o Brasil. E ainda tem o Curso de Verão. Sem palavras.

Espaço Cultural da 508 Sul:
o espaço possui, entre diversas outras (boas) opções, um (bom) teatro, (mal) conservado e com (zero) shows em cartaz. Pena, pena. Sugestão: reformar o teatro, comprar som e iluminação e oferecer ao mercado musical e teatral o aluguel do local a preços razoáveis. Não adianta fazer - somente - aquelas famosas “concorrências públicas” em que você tem que apresentar seu “currículo” e seu “projeto” e ser ou não aprovado por uma comissão de notáveis. Tem muita gente que quer apenas pagar um preço justo pelo espaço e não está nem um pouco a fim de ser julgado por ninguém. Mas o ideal é manter também a opção anterior, afinal, como nos ensina o filósofo John C. Mellencamp, a vida é dura.

GRV (http://www.grv.art.br/): selo de Brasília que tem em seu cast grandes guitarristas como Haroldinho Mattos, Celso Salim e Dillo D’Araújo. A GRV também trabalha com produção executiva e artística, produção fonográfica e elaboração e gestão de projetos culturais. É a organizadora da Feira da Música Independente (FMI) (http://www.fmi2008.com.br/), um dos maiores eventos musicais-anuais de Brasília.

Livraria Cultura e FNAC: cult-shows, a versão musical dos cult-movies. Tem que baixar aquele clima dublinense e literário. Só tocam bandas com letras inteligentes. Não vale rimar amor com dor ou calor. É proibida a entrada de intelectuais que consideram os discos “Pet Sounds” e/ou “Revolver” como os melhores de todos os tempos. A FNAC tem seus shows-happy-hour; na Cultura, domingos, 17 horas, às vezes.

Monstro Discos (http://www.monstrodiscos.com.br/): selo de Goiânia, com influência em Brasília. Os vizinhos nipônicos já abduziram bandas locais como os Sapatos Bicolores e os caras-legais da super-banda Prot(o). No último episódio, lançaram garras sobre seres indefesos: os eletropandas Lucy & The Popsonics. A Monstro Discos está aberta à contratação de novas bandas, com exceção dos gaúchos do Ultramen.

Porão do Rock (http://www.poraodorock.com.br/): ONG que produz, desde 1998, o nacionalmente famoso e disputado Festival Porão do Rock, que ocorre em junho ou julho. Em 2007, o Mudhoney conheceu os palanques de Brasília. Busca também atuar socialmente e seus objetivos, de acordo com o site, são bem audazes. Torcemos pelo sucesso e aguardamos retorno.

Radio Cultura-FM: é (ou será, ou é bom que seja) o elo de ligação, o hub, a conexão, a voz de tudo isto que está aqui. A comissão técnica é de primeira. Mais detalhes no post de 31.05.2007.

Senhor F (http://www.senhorf.com.br/): revista eletrônica e selo, tem como foco principal os indies e as guitar bands, embora outros estilos tenham também seu ingresso assegurado. Em conjunto com o estúdio de Philippe Seabra, lançou discos de bandas como Los Porongas, Volver, Graforréia Xilarmônica e Superguidis, além de dois bons pés-de-sebo. Baixe algumas faixas no site. O grande nome do cast é – na minha opinião, claro – alguém que foge do aparente “estilo principal” do selo: o soft-rock classudo e cheio de poesia de Beto Só. Estendendo seus tentáculos noturnos, as famosas “Noites Senhor F” tornam a noite de Brasília um pouco mais (atenção para palavra já utilizada anteriormente) criativa, e acontecem sem periodicidade definida no Gates’s Pub.

Teatro da Caixa: shows excelentes a preços populares, subsidiados pela CEF. Mesmo esquema do CCBB: em geral, os ingressos ou acabam em cinco minutos, ou o sujeito na sua frente compra o último. Futurologia: quando o lucro excessivo e totalmente fora de lógica dos bancos diminuir, os ingressos subsidiados ficarão mais caros, e conseqüentemente durarão mais tempo na bilheteria. E isso é bom ou ruim? A quem interessa o lucro excessivo dos bancos no Brasil? Aos banqueiros ou aos compradores de ingressos subsidiados? Antes um ingresso-subsidiado-tô-na-fila-desde-as-quatro do que um ingresso a preços de chico-buarque. Voltando.

Teatro dos Bancários: meio fora das luzes do palco musical, ultimamente. Shows esporádicos.

Teatro Nacional:
esse é top. Aluguel caro, fora do mercado independente, exceto se o produtor conseguir o patrocínio de dezenas de logos coloridos. Ou de um logo colorido bem grandão, daqueles que vai querer se instalar no alto de sua página, em local de destaque, e participar ativamente de todos os banners. Inscreva-se no “Arte por Toda Parte” (http://www.sc.df.gov.br/paginas/aptp/aptp_01.htm) ou no FMI e, se tiver sorte, tocará lá. O projeto do teatro é, obviamente, do onipresente Niemeyer.

Esqueci e não citei muita coisa. Isto aqui é muito menos que um compêndio.

Já ouvi diversas vezes que, no quesito musical, Brasília tem a fama de ser, digamos, um pouco “compartimentalizada”, palavra de origem desconhecida que significa dividida em compartimentos que não necessariamente se comunicam entre si. Será verdade? Ou apenas mais um reles e desprezível mito?

As terríveis falsificações chinesas e suas conseqüências nefastas sobre músicos éticos e honestos


(notícia urgente: cuidado com o exército vermelho. Esses chineses decididamente passaram dos limites, não dá nem mais para comprar uma guitarra em paz. Perigo extremo, a não ser que você queira uma Gibson Custom Shop nova por menos de US$ 300 e fique feliz com isso. Afinal, o que importa é o nome no headstock, não? Piratas sem ética, como diriam naquela propagando do rádio ... bem-vindo ao mundo Rolex, o Mercado Livre vai fazer a festa, a Feira do Paraguai, Galeria Pajé, Saara ...).


http://www.musoland.com.cn/

http://www.bazaarofchina.com/

Por falar nisso, como é que eu encomendo minha Gretsch tabajara ???